ARTIGO DO CAMARADA ANTONIO OMENA

Jaime Miranda, o Nazareno dialético

 

Era o ano mil novecentos e cinqüenta e oito e conheci o sindicalista Rubens Collaço procurando montar uma chapa para concorrer a presidência do sindicato dos rodoviários de Alagoas, o mesmo já não nutria esperança de conseguir tal intento, pois todas as praças e garagens de ônibus já tinham sido sondadas e ninguém se propunha a tamanha empreitada, topei o desafio e formou-se assim a chapa de oposição composta com Rubens Collaço como presidente, José Mauricio vice-presidente e Antonio Omena secretario, tendo esta chapa logrado a vitoria nas eleição e a partir deste momento esta diretoria eleita promove a campanha de sindicalização da classe. É partir deste momento histórico da classe dos rodoviários alagoanos que comecei a ter os primeiros contatos com o movimento da esquerda promovido neste contexto pelo PCB através do instrumento de divulgação, informação e propaganda “A voz do povo”, que tinha como seu Presidente a pessoa de “Jaime Miranda”.

Já em mil novecentos e sessenta estava filiado e engajado na campanha eleitoral  do pleito das eleições gerais daquele ano, em que nosso partido lançou as candidaturas da Nilson Miranda para vereador, Jaime Miranda para deputado estadual e o General Henrique Oeste para deputado federal, que na apuração deste pleito foi eleito Nilson Miranda para vereador de Maceió, Jaime Miranda fica na primeira suplência de deputado estadual e o general Henrique Oeste com a primeira suplência de deputado federal. E assim diante das circunstâncias histórica da sociedade reacionária que comandava o sistema e, por conseguinte este estado Jaime Miranda, não consegue assumir o tão esperado mandato.

E nesta circunstância de aproximação política ideológica, ficamos mais próximo da pessoa e dos ensinamentos políticos e ideológicos de Jaime Miranda. Como secretario do sindicato dos rodoviários de Alagoas e filiado no PCB é através das viagens a serviço do partido em que eu tinha a missão de motorista oficial para levar os dirigentes a viagens no interior do estado, para campanha política e trabalho de contato e conscientização política.

Dentre tantas viagens com riqueza de aprendizado político e humano, uma delas ficou gravada e testemunhadas a qual relatarei agora:

Estávamos em União dos Palmares em plena atividade eleitoral, Jaime Miranda, Oeste e a minha pessoa – Antonio Omena, e nesta circunstancia Jaime Miranda estava à procura de um líder sindical camponês, entramos na zona rural deste município a sua procura e o que encontramos nos deixou marcados pela formas e condições de vida dos camponeses, ao chegarmos a uma localidade dentro de um canavial vimos uma casa construída de sape e chã de barro a qual residia uma família de aproximadamente de cinco pessoas, a nos aproximarmos visualizamos duas meninas de aproximadamente de dez a doze anos de idades as quais estavam em estado de semi-nudez já que as vestimentas que as cobriam se é que cobriam, pois as mesmas pareciam como se fossem uma roupa de renda de tão dilacerada que estavam este pano que as cobriam estavam tão fino que eram simplementes transparente deixando amostras o que deveriam cobrir. Estas a nos ver correm para se esconder no interior daquela habitação e no momento seguinte o pai destas as trazem chorando claro de vergonha por estarem assim expostas e ele nos diz: “quero que os senhores vejam a misérias que nós convivemos aqui”, e para completar todo este episodio o irmão mais velho das garotinhas estava com uma viagem marcada mais não podia concretizá-la porque não tinha uma camisa para vestir, é neste momento que assisti uma das mais fascinante ação de um homem diante de problema social, é que “nazareno” como assim era chamado Jaime Miranda por seu comportamento fraterno diante das atrocidade promovida pelo sistema, não titubeou e abriu sua mala de viajem e retirando uma peça de camisa doa para este rapaz. Quantos dos que o julgaram e continuam julgando-o e que se escondem atrás de falsa ideologia e religiosidade fazendo hipocrisia, com certeza atos como estes foram muitos na vida de Jaime Miranda e isto incomoda a esta classe de pessoas, só homens da personalidade de Jaime Miranda são capazes de tamanho feito.

Retornando a cidade de União dos Palmares, estamos em um pequeno restaurante almoçando, eis que chegam três pessoas que queriam falar com o general Oeste, os quais tinham uma não simpatia do general, mas uma vez vem em cena permita-me os pensadores e estudiosos de chamá-lo de filosofo e assisto mais uma aula que não dadas em nenhuma universidade:

Ato 1

Chegam as três pessoas, omiti-se nomes por uma questão de ética e respeitos, o general Oeste se nega a receber e falar com essas pessoas que o procuram.

Ato 2

Jaime Miranda chama o general a parte que sempre o ouvia e respeitava e lhe diz:

Você esta “anti-dialetico”

O general o responde:

A dialética neste ponto não me convenceu.

Ato 3

Jaime Miranda chama o general e o retira para uma conversa em particular, é neste momento  que assisti uma das mais convincente palestra ou aconselhamento, embora não tenha ouvido o contexto da conversa, mas testemunhei o total convencimento do general, e vi o general que antes admitia que jamais falaria com aquelas pessoas, indo ao encontro destas e começar um dialogo, Jaime tinha um poder de persuasão verdadeiro e consistente.

Eis ai o verdadeiro poder de convencimento de Jaime Miranda, poder pelo conhecimento e pela verdade.

Jaime Miranda só será entendido por aqueles de compreendem e vivem um estagio especial do ser humano, esta pessoa despojada de vaidades foi a terceira pessoa mais importante na hierarquia do PCB, abaixo apenas de Luiz Carlos Prestes e Giocondo Dias, quanto ao Giocondo Dias Jaime tinha uma divergência quanto alguns procedimentos e comportamento deste em relação claro de política e de ideologia, e tenho a convicção que se não o tivessem sido trucidado pelos fascistas da ditadura o partido teria outro rumo, não a sua fragmentação.

Por que acho Jaime Miranda, este homem especial, porque foi o motivo do meu agregamento ao partido, ele tinha um forma de ouvir e ouvia todos independentemente que fosse um dirigente ou um simples tarefeiro do partido, a todos ele ouvia e assim nasceu o apelido de “Nazereno”.

Lembro que ainda estávamos no processo de encarceramento e tive a minha liberdade antes dos outros dirigentes que permaneceram presos e outros que estavam exilados, lembro-me de uma visita após minha libertação, em que Jaime me chama e me deu a incumbência de reestruturar o partido, o momento me deixa com pergunta por que eu na tarefa desta magnitude, um proletário elevado a categoria de quadro dirigente do partido, mas Jaime tinha certeza em quem confiava, embora nos primeiros momentos eu não me achasse capaz, mas ele mostrou que eu poderia e eu cumpri a tarefa, isto faz Jaime Miranda diferente e uma pessoa especial.

Ano de mil novecentos e sessenta e cinco, Jaime esta em liberdade e com um problema de saúde de laringite, e tínhamos receio consistente que se o mesmo fosse submetido a uma cirurgia aqui no estado a conseqüências não seriam favoráveis, tinham certeza que esta armado um complô para eliminá-lo em nosso estado. Então eu fiquei com a incumbência de transportá-lo para Recife, e esta parte da historia tem alguns fatos inusitados, fui buscá-lo em casa juntamente com sua esposa Elza, e nos faríamos uma viagem no jeep de propriedade de Roberto Mendes, por falha na logística do transporte, vejam ficamos sem combustível na porta do quartel na época 20º BC, hoje 59º BIMTZ, e quem nos ajuda a empurrar o veiculo para sair da área militar e justamente um sentinela da hora, completamos a viagem deixando-o no destino preestabelecido, nos cumprimentamos e voltei para Maceió, e foi meu ultimo contato com Jaime.

Estes fatos aqui narrados são fatos dentre outros que convivi com a pessoa de Jaime Miranda seu caráter e sua personalidade nos engrandece e me sinto feliz por ter convivido e aprendido com uma pessoa de distinção especial com ele.

Pensam que tiraram Jaime Miranda, não tiraram seu legado de compromisso com o humano continua, podem ate destruir um homem, mas não destroem o seu legado.

Companheiro,

 

Antonio Omena

 

Maceió, 31 de janeiro de 2015

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>