Artigo do camarada Jose Moura Rocha sobre Jayme Miranda

Jaime – o nosso líder.

                          

José Moura Rocha

 

Da memória que guardo de Jaime de Amorim Miranda – de Jaime, como o chamávamos -, eu inicio por transcrever parte do Capítulo XII: Uma Bastilha Tropical, do meu trabalho “Os ricos não tugem e os pobres não mugem”, Edições Dédalo 1202, à pág. 101.

 

                   Ei-la: “… de qualquer sorte, naquele dia 31, duas ‘subversivas’ visitas bateram à nossa porta; ambas, dignas do melhor registro revolucionário.

         A primeira delas fora Jaime de Amorim Miranda, o dirigente comunista local. Saltara da garupa de uma lambreta e se metera casa adentro. Paradoxalmente, queria uma arma e um refúgio.

                   Não lhe entregamos arma alguma, das insignificantes que tínhamos em casa. O ‘perigoso’ líder comunista, nosso presumível chefe, não dispunha de um simples revólver e ainda procurava um esconderijo. Como se vê, era alguém que se encontrava despreparado para dirigir a tomada do poder. Dissemo-lhe, com visível apreensão, da eventual violência do vizinho; das prisões que testemunháramos – vistas através da janela da nossa sala-de-visitas, na casa dos Pedrosa, dele aparentados. Lá, os policiais, comandados pelo feroz Barrinhos, da DOPSE, haviam levado todos.

                   Que sumisse, pois. Nós o enxotamos, malgrado a amizade e a admiração por sua figura humana. Sentíamo-nos inermes. Nem à própria família poderíamos assegurar o mínimo de segurança.

                   Somente voltaríamos a revê-lo, um ou dois meses depois, mais austero que um piedoso frade, no interior do velho presídio, compondo o rol dos presos políticos.”

 

                   Essa cândida imagem do impoluto Jaime estaria incompleta se não aduzisse o teor do curioso diálogo que entretivemos no interior do quarto\prisão que nos abrigava, meses depois, no primeiro andar do velho presídio: ele, Ernani Maia Lopes – um antiquíssimo comunista e fazendeiro, de Capela, e eu.

Era o dia do sepultamento do polêmico delegado Barrinhos. Em meio ao estardalhaço do noticiário radiofônico, podemos ver-lhe o cortejo fúnebre, através da janela-dos- fundos do nosso abrigo, a deslocar-se sobre a Av. Siqueira Campos, quase à chagada do Cemitério.

A cena nos propiciou um diálogo esclarecedor. Comentamos sobre a banalização da prática dos crimes políticos em Alagoas. Desse tema, fomos ao recente apelo – em torno de 1963, salvo engano – que ele, Jaime, nos fizera: pedira-nos que obtivéssemos alguns imóveis rurais, a fim de que algumas pessoas, suas comandadas, treinassem táticas de luta armada. A Ernani, por sua qualidade de comunista e proprietário rural; a mim, por minha qualidade de simpatizante e por minhas múltiplas ligações pessoais com diversos proprietários.

 

Nunca soube se seu objetivo fora alcançado. Todavia, nesse ensejo, Ernani perguntou-lhe acerca da sua familiaridade com armas de fogo, como a querer certificar-se de que o próprio Jaime conhecia a matéria sobre a qual se propusera a treinar os seus camaradas… A resposta de Jaime nos provocara uma estridente gargalhada:

 

  • - “Na verdade, nunca lidei ao menos com uma espingarda soca-tempero…”

 

***

 

A maioria dos chamados subversivos que os golpistas de março de 64 prendeu, cassou e matou, com raras exceções, eram puros idealistas; alguns deles, sonhadores revolucionários.

 

Amo a memória de Jaime Amorim de Miranda porque sempre o enquadrei em ambas qualificações !

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