ARTIGO DO CAMARADA ANTONIO OMENA

Jaime Miranda, o Nazareno dialético

 

Era o ano mil novecentos e cinqüenta e oito e conheci o sindicalista Rubens Collaço procurando montar uma chapa para concorrer a presidência do sindicato dos rodoviários de Alagoas, o mesmo já não nutria esperança de conseguir tal intento, pois todas as praças e garagens de ônibus já tinham sido sondadas e ninguém se propunha a tamanha empreitada, topei o desafio e formou-se assim a chapa de oposição composta com Rubens Collaço como presidente, José Mauricio vice-presidente e Antonio Omena secretario, tendo esta chapa logrado a vitoria nas eleição e a partir deste momento esta diretoria eleita promove a campanha de sindicalização da classe. É partir deste momento histórico da classe dos rodoviários alagoanos que comecei a ter os primeiros contatos com o movimento da esquerda promovido neste contexto pelo PCB através do instrumento de divulgação, informação e propaganda “A voz do povo”, que tinha como seu Presidente a pessoa de “Jaime Miranda”.

Já em mil novecentos e sessenta estava filiado e engajado na campanha eleitoral  do pleito das eleições gerais daquele ano, em que nosso partido lançou as candidaturas da Nilson Miranda para vereador, Jaime Miranda para deputado estadual e o General Henrique Oeste para deputado federal, que na apuração deste pleito foi eleito Nilson Miranda para vereador de Maceió, Jaime Miranda fica na primeira suplência de deputado estadual e o general Henrique Oeste com a primeira suplência de deputado federal. E assim diante das circunstâncias histórica da sociedade reacionária que comandava o sistema e, por conseguinte este estado Jaime Miranda, não consegue assumir o tão esperado mandato.

E nesta circunstância de aproximação política ideológica, ficamos mais próximo da pessoa e dos ensinamentos políticos e ideológicos de Jaime Miranda. Como secretario do sindicato dos rodoviários de Alagoas e filiado no PCB é através das viagens a serviço do partido em que eu tinha a missão de motorista oficial para levar os dirigentes a viagens no interior do estado, para campanha política e trabalho de contato e conscientização política.

Dentre tantas viagens com riqueza de aprendizado político e humano, uma delas ficou gravada e testemunhadas a qual relatarei agora:

Estávamos em União dos Palmares em plena atividade eleitoral, Jaime Miranda, Oeste e a minha pessoa – Antonio Omena, e nesta circunstancia Jaime Miranda estava à procura de um líder sindical camponês, entramos na zona rural deste município a sua procura e o que encontramos nos deixou marcados pela formas e condições de vida dos camponeses, ao chegarmos a uma localidade dentro de um canavial vimos uma casa construída de sape e chã de barro a qual residia uma família de aproximadamente de cinco pessoas, a nos aproximarmos visualizamos duas meninas de aproximadamente de dez a doze anos de idades as quais estavam em estado de semi-nudez já que as vestimentas que as cobriam se é que cobriam, pois as mesmas pareciam como se fossem uma roupa de renda de tão dilacerada que estavam este pano que as cobriam estavam tão fino que eram simplementes transparente deixando amostras o que deveriam cobrir. Estas a nos ver correm para se esconder no interior daquela habitação e no momento seguinte o pai destas as trazem chorando claro de vergonha por estarem assim expostas e ele nos diz: “quero que os senhores vejam a misérias que nós convivemos aqui”, e para completar todo este episodio o irmão mais velho das garotinhas estava com uma viagem marcada mais não podia concretizá-la porque não tinha uma camisa para vestir, é neste momento que assisti uma das mais fascinante ação de um homem diante de problema social, é que “nazareno” como assim era chamado Jaime Miranda por seu comportamento fraterno diante das atrocidade promovida pelo sistema, não titubeou e abriu sua mala de viajem e retirando uma peça de camisa doa para este rapaz. Quantos dos que o julgaram e continuam julgando-o e que se escondem atrás de falsa ideologia e religiosidade fazendo hipocrisia, com certeza atos como estes foram muitos na vida de Jaime Miranda e isto incomoda a esta classe de pessoas, só homens da personalidade de Jaime Miranda são capazes de tamanho feito.

Retornando a cidade de União dos Palmares, estamos em um pequeno restaurante almoçando, eis que chegam três pessoas que queriam falar com o general Oeste, os quais tinham uma não simpatia do general, mas uma vez vem em cena permita-me os pensadores e estudiosos de chamá-lo de filosofo e assisto mais uma aula que não dadas em nenhuma universidade:

Ato 1

Chegam as três pessoas, omiti-se nomes por uma questão de ética e respeitos, o general Oeste se nega a receber e falar com essas pessoas que o procuram.

Ato 2

Jaime Miranda chama o general a parte que sempre o ouvia e respeitava e lhe diz:

Você esta “anti-dialetico”

O general o responde:

A dialética neste ponto não me convenceu.

Ato 3

Jaime Miranda chama o general e o retira para uma conversa em particular, é neste momento  que assisti uma das mais convincente palestra ou aconselhamento, embora não tenha ouvido o contexto da conversa, mas testemunhei o total convencimento do general, e vi o general que antes admitia que jamais falaria com aquelas pessoas, indo ao encontro destas e começar um dialogo, Jaime tinha um poder de persuasão verdadeiro e consistente.

Eis ai o verdadeiro poder de convencimento de Jaime Miranda, poder pelo conhecimento e pela verdade.

Jaime Miranda só será entendido por aqueles de compreendem e vivem um estagio especial do ser humano, esta pessoa despojada de vaidades foi a terceira pessoa mais importante na hierarquia do PCB, abaixo apenas de Luiz Carlos Prestes e Giocondo Dias, quanto ao Giocondo Dias Jaime tinha uma divergência quanto alguns procedimentos e comportamento deste em relação claro de política e de ideologia, e tenho a convicção que se não o tivessem sido trucidado pelos fascistas da ditadura o partido teria outro rumo, não a sua fragmentação.

Por que acho Jaime Miranda, este homem especial, porque foi o motivo do meu agregamento ao partido, ele tinha um forma de ouvir e ouvia todos independentemente que fosse um dirigente ou um simples tarefeiro do partido, a todos ele ouvia e assim nasceu o apelido de “Nazereno”.

Lembro que ainda estávamos no processo de encarceramento e tive a minha liberdade antes dos outros dirigentes que permaneceram presos e outros que estavam exilados, lembro-me de uma visita após minha libertação, em que Jaime me chama e me deu a incumbência de reestruturar o partido, o momento me deixa com pergunta por que eu na tarefa desta magnitude, um proletário elevado a categoria de quadro dirigente do partido, mas Jaime tinha certeza em quem confiava, embora nos primeiros momentos eu não me achasse capaz, mas ele mostrou que eu poderia e eu cumpri a tarefa, isto faz Jaime Miranda diferente e uma pessoa especial.

Ano de mil novecentos e sessenta e cinco, Jaime esta em liberdade e com um problema de saúde de laringite, e tínhamos receio consistente que se o mesmo fosse submetido a uma cirurgia aqui no estado a conseqüências não seriam favoráveis, tinham certeza que esta armado um complô para eliminá-lo em nosso estado. Então eu fiquei com a incumbência de transportá-lo para Recife, e esta parte da historia tem alguns fatos inusitados, fui buscá-lo em casa juntamente com sua esposa Elza, e nos faríamos uma viagem no jeep de propriedade de Roberto Mendes, por falha na logística do transporte, vejam ficamos sem combustível na porta do quartel na época 20º BC, hoje 59º BIMTZ, e quem nos ajuda a empurrar o veiculo para sair da área militar e justamente um sentinela da hora, completamos a viagem deixando-o no destino preestabelecido, nos cumprimentamos e voltei para Maceió, e foi meu ultimo contato com Jaime.

Estes fatos aqui narrados são fatos dentre outros que convivi com a pessoa de Jaime Miranda seu caráter e sua personalidade nos engrandece e me sinto feliz por ter convivido e aprendido com uma pessoa de distinção especial com ele.

Pensam que tiraram Jaime Miranda, não tiraram seu legado de compromisso com o humano continua, podem ate destruir um homem, mas não destroem o seu legado.

Companheiro,

 

Antonio Omena

 

Maceió, 31 de janeiro de 2015

Artigo do camarada Jose Moura Rocha sobre Jayme Miranda

Jaime – o nosso líder.

                          

José Moura Rocha

 

Da memória que guardo de Jaime de Amorim Miranda – de Jaime, como o chamávamos -, eu inicio por transcrever parte do Capítulo XII: Uma Bastilha Tropical, do meu trabalho “Os ricos não tugem e os pobres não mugem”, Edições Dédalo 1202, à pág. 101.

 

                   Ei-la: “… de qualquer sorte, naquele dia 31, duas ‘subversivas’ visitas bateram à nossa porta; ambas, dignas do melhor registro revolucionário.

         A primeira delas fora Jaime de Amorim Miranda, o dirigente comunista local. Saltara da garupa de uma lambreta e se metera casa adentro. Paradoxalmente, queria uma arma e um refúgio.

                   Não lhe entregamos arma alguma, das insignificantes que tínhamos em casa. O ‘perigoso’ líder comunista, nosso presumível chefe, não dispunha de um simples revólver e ainda procurava um esconderijo. Como se vê, era alguém que se encontrava despreparado para dirigir a tomada do poder. Dissemo-lhe, com visível apreensão, da eventual violência do vizinho; das prisões que testemunháramos – vistas através da janela da nossa sala-de-visitas, na casa dos Pedrosa, dele aparentados. Lá, os policiais, comandados pelo feroz Barrinhos, da DOPSE, haviam levado todos.

                   Que sumisse, pois. Nós o enxotamos, malgrado a amizade e a admiração por sua figura humana. Sentíamo-nos inermes. Nem à própria família poderíamos assegurar o mínimo de segurança.

                   Somente voltaríamos a revê-lo, um ou dois meses depois, mais austero que um piedoso frade, no interior do velho presídio, compondo o rol dos presos políticos.”

 

                   Essa cândida imagem do impoluto Jaime estaria incompleta se não aduzisse o teor do curioso diálogo que entretivemos no interior do quarto\prisão que nos abrigava, meses depois, no primeiro andar do velho presídio: ele, Ernani Maia Lopes – um antiquíssimo comunista e fazendeiro, de Capela, e eu.

Era o dia do sepultamento do polêmico delegado Barrinhos. Em meio ao estardalhaço do noticiário radiofônico, podemos ver-lhe o cortejo fúnebre, através da janela-dos- fundos do nosso abrigo, a deslocar-se sobre a Av. Siqueira Campos, quase à chagada do Cemitério.

A cena nos propiciou um diálogo esclarecedor. Comentamos sobre a banalização da prática dos crimes políticos em Alagoas. Desse tema, fomos ao recente apelo – em torno de 1963, salvo engano – que ele, Jaime, nos fizera: pedira-nos que obtivéssemos alguns imóveis rurais, a fim de que algumas pessoas, suas comandadas, treinassem táticas de luta armada. A Ernani, por sua qualidade de comunista e proprietário rural; a mim, por minha qualidade de simpatizante e por minhas múltiplas ligações pessoais com diversos proprietários.

 

Nunca soube se seu objetivo fora alcançado. Todavia, nesse ensejo, Ernani perguntou-lhe acerca da sua familiaridade com armas de fogo, como a querer certificar-se de que o próprio Jaime conhecia a matéria sobre a qual se propusera a treinar os seus camaradas… A resposta de Jaime nos provocara uma estridente gargalhada:

 

  • - “Na verdade, nunca lidei ao menos com uma espingarda soca-tempero…”

 

***

 

A maioria dos chamados subversivos que os golpistas de março de 64 prendeu, cassou e matou, com raras exceções, eram puros idealistas; alguns deles, sonhadores revolucionários.

 

Amo a memória de Jaime Amorim de Miranda porque sempre o enquadrei em ambas qualificações !

Numa trincheira da Luta ou A Queda, Capitulo de um romance iniciado por Jayme Miranda

ENSAIO LITERÁRIO:

RASCUNHO

DO

ROMANCE:

 

Numa Trincheira

da

Luta.

Ou

A Queda

Jaime Miranda

Ano de 1953.

Eu Denuncio!

I

Noite de Julho, estiada e límpida. No céu nordestino, dir-se-ia que as estrelas se comprimiam mirando-se nas águas do Capibaribe. Algum tempo com os pés no chão glorioso e legendário e já se ama profundamente. Sente-se a terra como um filho das suas entranhas. Aprende-se a sua história vivendo-se seus momentos. Conhece-se sua gente no élan do combate ombro a ombro. O curso da vida fluiu e a experiência se nos impregna do mais consciente amor à vida.

A cada novo dia, esforçamo-nos para corresponder à consciência das responsabilidades e vez por outra as exigências nos levavam a imprudência atirando-me contra a corrente com os riscos das quedas ameaçadoras e desastradas.

Aquela noite acabara de cometer a última temeridade do dia.

Fui apanhar uma encomenda na casa da família Duarte. Tive de jantar com eles. Como recusar se eram tão dedicados conosco? O risco há existia. O melhor era não provocar alardes. O estomago também reclamava como que advertindo a sua importância. Jantei e até combinamos assistir Flor de Pedra. Convenceram-me da justeza de reservar tempo para tomar contacto com o filme e a arte soviética. Exigiram visitas mais freqüentes acaçulando-me a gulodice porque havia desaparecido nas festas do milho quando pamonhas e canjicas tinham azedado à nossa espera.

Passava das 20 horas quando despedimo-nos. Deixei a travessa e tomei a rua José de Alencar. Arrepiou-me instintivamente o gip na esquina protegendo o grupo de indivíduos sentados ao meio fio como gatos escondidos e os rabos de fora. Uma tensão dominou-me mas não impediu um raciocínio integral. Voltar? Se o pressentimento fosse exato apenas iria expor aquelas queridas criaturas a vexames sem nenhum proveito, porque interceptaria a volta e só chegaria talvez o eco da resistência. Prosseguir? Era o mais indicado numa situação duvidosa, possibilitaria ganhar tempo e distância para as medidas nessas emergências. Tomei a calçada. Reparei que não eram casas comuns. Eram sítios com grades altas. A rua, sem movimento. Comprida. Se atingisse a outra esquina, tinha massa à beça nas proximidades da Emissora. O motor arrancou a partida. Não atingirei a esquina. Felizmente os casais de enamorados gostam de retiros esquisitos. Contei meia dúzia de esparsos casais. O gip estancou rente comigo. Os indivíduos saltaram com armas na mão intimando à prisão e bloqueando-se a frente e a retaguarda. Contudo a melhor arma ainda é a surpresa. Não esperavam encontrar resistência. Os movimentos foram rápidos e vigorosos romperam os da frente. Agora, pernas, para que te quero? Um disparo. Dois. Outro e mais outro. Atiram; se não atingirem ganharei a corrida. Livrei-me do embrulho jogando-o com todas as forças para o interior de um sítio. As arvores se aproximavam. Populares já se aglomeravam na esquina. Mas um pouco de fôlego e Zatopeck não faria inveja. O obstáculo foi mais veloz. Por um triz evitou-se o atropelamento fatal. O gip cortou  a carreira bloqueando-me.o estancamento súbito livrou o choque mas rompeu o equilíbrio. Vem escorrego. Vem tombo. Outros mais. Repetem-se agora é a agressão. Fazem-na, como linchadores, dando socos, pontapés cacetadas. É horrível ser linchado. Não consigo ficar em pé. As pancadas me embolam e me estendem no chão da amada Recife. Escuto: é um ladrão! É um ladrão!

Reúno as forças. Escudo-me com um linchador e clamo a pleno pulmões, denunciando os bandidos e proclamando a condição de patriota. Golpearam na cabeça. Fico zonzo. Algemaram-me as mãos. Novos golpes. Uma lezeira impede-me de senti-los. Contudo, já  ouço muitas vozes. São vozes sublimes. Vêem das entranhas vigilantes da terra. Quem está cobrindo a minha cabeça com um saco? Estão me carregando mas as vozes crescem, se avolumam num coro como um hino. Hino sagrado. Vem do povo. Somente o povo canta assim. Estou dormente porém, conheço essas vozes. Vão me soltar. Mas estão se afastando. Dão mais pancadas. Isso é um pesadelo terrível. Ouço agora grunhidos e mordi… grasnar de abutres, pinicando e arranhando. Relinchos que escoiceiam . quantas dores doem na gente? Minha cabeça está refletindo o movimento de rotação da terra no sentido inverso. Tudo girando fora do eixo. Estou correndo de cabeça para baixo. Porque me maltratam? Faz parte do pesadelo. Essa escuridão é tétrica. Não posso ficar cego senão me atrasarei nos estudos e não verei as belezas da vida. Estancou o movimento. Mas o movimento da matéria não para. Que dor de cabeça! É de asnar. Os pobres da minha terra quando morrem são conduzidos numa rede. Estão me carregando numa rede. Arrancaram-me as roupas. Isso é indecente. Não sou partidário do nudismo. É uma invenção degenerada da burguesia ociosa. Tenho acanhamento de ficar despido na frente dos outros. Esperem não me enterrem nu. Não morri. Sinto que está chovendo. Minhas roupas!… as gargalhadas sinistras foram as primeiras percepções lúcidas após os choques. Depois os jatos d’água no rosto. A respiração ofegante. Os braços relaxados, abertos tinham os pulsos presos por algemas seguras nas barras de ferro. Fazia frio pelo corpo despido. Fitei aos brutamontes. Eram seis. Um deles, agigantado de cabeleira cheia, olhos agateados, calçando botas adiantou-se vociferando:

– Você caiu nas mãos do Serviço Secreto e vai ver o que é reação financiada pelo imperialismo norte-americano!

E para que não houvesse dúvida completou desferindo uma tapona.

– Vamos comer e quando acabar queremos todo o serviço: nome, endereço; ligações, função , etc., acentuou.

Retiraram-se. Os sapatos estavam próximos. Podia alcançar com os pés e tirar as meias. Primeira tarefa proposta e executada com êxito. As meias passaram com o auxilio dos pés para dentro do cubículo. O embrulho estaria salvo? Doía-me a cabeça. Sentia o corpo machucado. Os pulsos doloridos. Avaliei os nervos. Não eram fracos porém, estavam profundamente tensos. Mau sinal porque predominava na corrente emotiva a voltagem de ódio e animo. Era um soldado em poder do inimigo no maior e mais desigual dos combates. Eles tinham todas as armas e recursos. Possuíam experiência criminosa requintada. O soldado era inexperiente e só dispunha de uma coisa­: a arma da convicção. A mais prodigiosa das armas não se exibe nas esgrimas, não se maneja abertamente, atua nos recônditos da natureza humana; revela-se na energia fantástica que comunica e opera e mobiliza e transforma. Se empunha em cada ferida que se abre e sangra. O segredo do uso é muito simples: imperar, a cada prova, a fibra do amor à vida! Não podia deter-me na consulta. Apenas tomava o pulso do estado emotivo. Era normal naquelas condições. Estava pronto. O mínimo que podia acontecer era o abalo, nesse caso teria que aprofundar o exame. Colocava-se a segunda tarefa: não transgredir. Não ceder. Não vacilar. Manter a posição. Acabaram de comer. Como pode se alimentar o crime? A refeição deve ser tétrica. Cardápio de assassinos. Parecem piores que os antropófagos. Apareceram como espectros do terror. Mangas arregaçadas, cassetetes em riste, armas no cinto, pousando de gangsteres como nos filmes de Hollywood. Como são valentes!

– A sessão espírita vai começar. Desembuche logo direitinho a sua história se não quiser morrer de pau!

Era uma pena se a juventude de meu corpo se extinguisse tão cedo de maneira tão brutal quando encarnava os ideais mais belos de se viver.

– Solta a língua agente subversivo, não lhe caçamos há tanto tempo para namorar você, não nos espie com esse olhar fotográfico… seguram pelos cabelos. Esmurram. Não atingem os olhos. Eles continuarão a incomodar. Pararam. Vociferam. Vêm com blandícias.

– Rapaz, nós sabemos que você é um dirigente de responsabilidade. Acompanhamos seus passos porque lhe traíram. Não seja besta; faça como os outros, poupe a sua pele nos dê o serviço e será solto sem sofrer nada!.

Devo ter esboçado uma resposta mais ou menos assim:

– Houve equívoco. Não sou agente subversivo. Sou um cidadão. Nada tenho a dizer se não protestar contra esse crime que estão perpetrando. Isso é um crime contra a constituição.

Devo ter proferido porque gravei a réplica:

– Quer embromar filho… Constituição uma merda. Aqui não é reunião de deputados não. A cantiga é diferente comece logo a dizer seu nome, endereço e suas ligações militares! E começou a série de pancadas. Porque concentrar nas costas? Acaso saberão das debilidades dos pulmões? Vão cansar de bater. Estão me dando uma importância que nunca tive a honra de merecer. Faz sete anos que cumpri o dever militar limitei-me no período normal a retirar a carteira de reservista como sargento. Lamento que não compreendesse ainda bem as coisas. Valeria a pena explicar o engano? Não! Para quê? Arranjariam novos pretextos como a fábula do lobo e o cordeiro.

  • Responda, você vem substituir Agliberto!

Quantas vezes você agüentou isso querido camarada? Foi ótimo lembrarem o seu nome. Vai ser mais fácil suportar. Tinha nove anos quando o embarcadiço Elias me contou a história de um patriota aviador que sozinho tomou um quartel. Senti a coisa como uma lenda bonita onde a imaginação atrapalhada misturava os acontecimentos históricos de 22, 24 e 35, como uma coisa só. Como quem coleciona estampas guardava na memória um grupo de figuras inesquecíveis: Siqueira Campos, o Forte de Copacabana, Agildo, você e o nosso imenso Prestes. Faz dezesseis anos. Como eu os sinto e compreendo agora! Que força enorme vocês animam!

Ah, se as mãos não estivessem presas reagiria melhor, mas posso cuspir!

 

II

 

“… Treme a terra triste e sombria…

São as vacas da agonia

Da liberdade no chão?…

Ou do povo o braço ousado

Que sob montes calcados

Abala-os como um titão?” (1)

 

Os pólos são regiões cobertas de gelo. O general inverno é famoso na Rússia. Nas noites chuvosas minha mãe nos cobria com um grosso cobertor de lã e nos calçava de meias para não resfriar os pés. Menino saia da lama, a água empossada faz mal! Outrora os revolucionários soviéticos quando caíam eram deportados para a Sibéria aonde o rigor do frio minava-lhes a preciosa saúde. Quando chove os mocambos ficam cheios de água ameaçando afogar aos pobres moradores. Preciso arranjar uma capa se não ficarei como pinto molhado prejudicando o ritmo do trabalho. Hum! Quantas dores estão doendo no meu corpo? Onde estou?

Pouco a pouco, a cabeça voltou a funcionar direito. As mãos soltas agora ajudaram a sentar-me. Tiritava de frio. Reparei o ambiente melhor, a janela. Dimensões de um túmulo que não me cabia bem. Cova  emcimentada com um dedo d’água. Lufadas de vento rijo penetravam pelas grades. Frio implacável chicoteava as carnes, os nervos e os ossos que não continham as convulsões do corpo. Busquei as meias. Estavam molhadas. Estdendi-as nas barras de ferro. Era preciso enfrentar o frio cortante. Planifiquei os exercícios. Que esforço para executa-los, cada movimento respondiam as dores em cada canto. Todavia deu resultado, suei e aqueci-me. Quando cansava em pé em cima das meias. A noite toda entre genuflexões e a posição relaxada de descansar. A máquina funcionava bem na produção de calor. Contudo deu sintomas de falha. Espirros e tosses sucessivos. Lembrei-me que há poucos anos tinha cuidado de uma basite pulmonar, e não ligara ultimamente para as exigências do organismo. Defeito de pequeno-burguês esse de menosprezar o capital mais precioso. Manter e cuidar da saúde é uma tarefa indeclinável cuja subestimação estranha e nociva e incompatível com os nosso princípios humanistas. Acudiu-me a lembrança de duas companheiras. Luiza e Berta. Que instinto notável era o delas. O carinho fraternal o desvelo, a solicitude, cercavam-nos de cuidados maternais. Ambos eram símbolos marcantes de amor fraternal e do zelo consciente pelo bem-estar dos que tiveram a honra de conviverem a hospitalidade inesquecível. Que dinamismo, que iniciativa, que entusiasmo transmitiam

 

(1) – Castro Alves.

aos afazeres domésticos. Quantas lições nos gestos simples inspirando-nos mãos amor ao trabalho! Quanta justeza nas críticas contra a subestimação dos meios de subsistência. Formidável, vocês companheiros! Se agüentar a tribuzana, um dia proclamaremos o nosso mútuo reconhecimento. Garanto-lhes a autocrítica! Apanho uma das meias. Está cerzida pelas mãos de Berta. Obrigado. Servirá de lenço para abafar os espirros e a tosse impertinente. Assim eles não escutam o queixume involuntário do corpo maltratado. Ouço-lhes o ressonar. Resfolegam como porcos. De que são feitos as feras humanas? Como podem dormir mantendo um homem suplicando? Acaso a prática de crimes tem o efeito de narcóticos que entorpecem e anulam a consciência? Será que não sentem? E como podem dormir?

Eita frio danado! Recomeço os exercícios. Recordo as aulas de educação física. Ou por falhas da memória ou pelo limitado campo de instruções não satisfizeram. Necessário inventar novas séries mais adaptáveis. Cansam muito. É porque estou destreinado. Um bom esportista não desanima porque boiou. Insiste. Se ao menos estivesse de calção e camiseta não dispensaria tanto esforço. Escuta! Não houve o chilrear dos pássaros? Passam em bandos, lá fora, trazendo a madrugara e acordam os bruptos nessas trevas. Abrem a porta do quarto onde está situado o cubículo. Penetra uma claridade tênue que permite uma localização melhor. A casa é uma dessas habitações dos moradores do campo. Vejo bem dois dos brutamontes. Um é baixote, grosso avermelhado, olhos miúdos, meio calvo, bigode ruivo retorcido sobre uma boca de riso encardido. O outro é um mameluco, alto, espaduado, cabeçorra, olhos grandes, brancos, como de cabra bêbada.

  • Acabem logo calhordas!
  • Traga o café dele, panta.

O mameluco saiu. De volta trazia uma lata de querosene cheia d’água. Atirou-a entre as grades, molhando-me e ensopando-me a cova. Retiraram-se às gargalhadas. As meias serviram de toalha. Sem embargo o fio fustigou com mais rigor. Aqueço-me novamente repetindo os movimentos. Perscruto, palmo a palmo a cova. Toda emcimentada. Nenhuma brecha. Uma rachadura nos fundos. Encontro um ótimo exercício para as mãos. Diabo de dedos finos se machucam logo! Persisto. Nos cantos da unha, esmalte de sangue. Levo-os à boca. O cansaço, o sono, são barras de chumbo pesando nas pálpebras. Vou sentar-me um pouco. Percebo o ruído de vasilhas. Devem estar preparando comida. O estomago reclama. Necessário enfrentar mais dois inimigos que se avizinham: a sede e a fome! Recorro aos prodígios da mente espairecendo idéias e pensamentos. Detenho-me nas evocações históricas do mês em curso. Foi nesse período que a geração de 22 e 24, inscreveu os dois gloriosos cinco de julho. Duas etapas marcantes do movimento patriótico revolucionário. Um punhado de bravos que sem uma compreensão e uma perspectiva clara do caráter e dos fins da ação revolucionária sem por isso trepidou no sacrifício das preciosas vidas em defesa dos ideais nacional libertadores! Teve início também a epopéia militar da marcha da coluna, dirigida pelo general do povo brasileiro, o nosso amado cavaleiros da Esperança. Percorreram 30.000 quilômetros de privações e provações na trajetória do heroísmo. Foi esse mesmo jovem de 26 anos que mais tarde enveredando pelos caminhos do grande Outubro inspirou as páginas indeléveis de 35.

  • Panta leva o almoço do teimoso!

Range o cadeado. Levanto-me na tentativa vã de proteger-me. Protestei e recebi em cheio a enxurrada d’água. A sede reclama e a língua  apara água salobra que escorre no rosto. Deve haver riacho ou cacimba próximo. O frio desfere navalhadas cortantes. É como um chicote invisível que fustiga, fustiga implacavelmente. A idéia de ser açoitado renasce a natureza nordestina. Caboclo morre mas não apanha. Quantas vezes me educaram nessa frase. Caboclo se acaba na peixeira mas não leva tapona para casa. Quantas vezes já bateram de ontem para cá? A raiva cresce, cresce, acelerando a respiração. Raiva de caboclo brabo. Aumenta. Domina. Explode como num possesso.

  • Bandidos, filhos das putas…

As mãos crispadas contra as barras de ferro. As carnes enrugadas tremendo de frio e de ódio. Ódio de caboclo selvagem que anulou as dores do corpo, a sensação de frio e as emoções educadas. Berrei  o mais sentido e impublicável  dos discursos. Todos os nomes feios e palavrões que sabia. E somente depois que os tons foram diminuindo, se apagando, a garganta apertando e a voz ficando roçanha, readquiri o controle.

– Meu rapaz o desabafo foi inevitável porém não o repita, ninguém lhe ouvirá, poupe suas energias, desse jeito é o rumo do desespero e daí ao pânico é um passo. Calma e serenidade, firmeza e animo, companheiro!…

– Parecia a voz de Constantino. Donde vem? Onde está? Vem e está dentro de mim mesmo. Aquele rosto sisudo no roupão desengonçado era dono duma personalidade impressionante. Obriguei certa feita, nos apontamentos permitidos à vista, a letra emperrada carregando esquemas à força e revelando todos os esforços para dominar o manejo do esquisito instrumento que lhe desenhava o esboço das intervenções. Por aí nunca se avaliaria as suas qualidades. Que força de expressão! Que raciocínio poderoso e convincente! Como nos ajudava a caracterizar acertadamente as coisas. Embora se percebesse claros e insuficiências de nível geral, notava-se a cada novo encontro que ele o preenchia progredindo como convém a um autentico mestre como ele o era. Ignoro o seu verdadeiro nome e o seu passado. Aliás é curiosa essa fase. Não precisamos saber muita coisa. Dispensamos apresentações. Conhecemos e admiramos pelas ações. É mais significativo assim. Ao tratar das questões prendia a atenção, acentuava as palavras como se quisesse guarda-las na gente.

– Você não está acostumado nem tem prática desse negócio, porém tem todas as condições para se acostumar e pratica-lo com facilidade. Não se afobe diante das dificuldades. Elas existem para serem enfrentadas. Confio no seu esforço… não sei se correspondi, tampouco vamos examinar isso aqui. Não obstante, a expressão grudou. “As dificuldades existem para serem enfrentadas.” Estou  a braços com uma tremendíssima agora e nem ao menos conheço o “se fores preso camarada…”. Sei que existe porque gravei bem o título anunciado. Tenho que autocriticar-me definitivamente nas questões de estudo se escapar dessa. Não momento é aprender com o próprio inimigo. É duramente cruel. Diante de uma brutalidade covarde dessa não é indispensável conhecer todas as experiências teóricas e não precisa dos rasgos de heroísmo, se sente nas carnes e justeza da luta contra um regime que cria e sustenta monstro dessa espécie.

– O cri-cri dos grilos anunciava a noite lá fora? Cá dentro, eram travas permanentes. Guinchou o cadeado. Reapareceram segurando a haste metálica de um candeeiro. Trinquei os dentes contraindo todas as energias ao ouvir a voz cínica..

– Olhe seu agitador, você fez escândalo ai com essa fritaria poderíamos lhe calar no cacete porém não somos os monstros como você chamou. Cumprimos as ordens do chefe. Ganhamos disso, temos de vir saber quando você vai querer falar…

A garganta seca, queimando. Os lábios gretados. O frio rasgando a planta dos pés, invadindo as pernas, o corpo, de alfinetadas de gelo, a cabeça fervendo comandou a pronuncia rouca, controlada.

  • Não tenho nada que falar!…
  • Você é franzino e não vai agüentar os banhos, traga o café panta!
  • Monstros, assassinos isso não ficará impune!

A água tinha o efeito de um bloco de gelo que se desmanchava esparramando-se como garoa ao longo da estrutura física que me cobria de gotas de neve. Os exercícios limparam a neve porém esgotaram as reservas de energia. O estomago seco contorcia-se de fome. O tronco era um fardo que as pernas dormentes não suportavam mais. Abri uma das meias, ajeitei a outra. Não davam para imitar uma esteira de pipiri. Quem não tem cachorro caça com gato. Serviriam de almofada. Assentei-me dentro d’água. Imaginei que se tivesse luz veria os pés e as mãos inchadas, engelhadas e arroxeadas. O cubículo era uma pedra enorme de gelo e as meias um abrigo inconveniente. Deu-me uma tremedeira como se estivesse com impaludismo. Os dentes soltavam-se na boca desgovernada. Pareciam batidas de castanholas. Se tivesse um cigarro… o vício despertou. Fumar um cigarro, que desejo ardente! Sorver longas e fortes tragadas. Inspirar e soprar fortemente. Os beiços e a garganta secas arderam mais. Movi os dedos como se segurasse um cigarro. Deu vontade de sentir o cheiro da nicotina. Levei a mão em concha ao rosto. Não tinha cheiro. Parecia mão de defunto. Os mortos ficam livres de hábito de fumar. Devo ter um maço de cigarros no bolso da roupa.

  • Tragam minhas roupas!… Devolvam minhas roupas!
  • Está achando pouco os banhos, daremos já outro.

A gargalhada sinistra seguiu a voz de taboca rachada repercutindo tetricamente naquela  catacumba de suplícios. Insisti, por uma força superior ao desejo de fumar? O instinto de conservação. A mão gelada de encontro ao rosto abrasado, queimando. Os olhos apertando. A febre chegava. Não somos carneiros para se entregar assim. Não pode ser errada a iniciativa que não fere as questões de princípio. Estudei a forma de colocar a restauração das roupas. Invoquei a constituição que eles taxaram de merda. Com o maior esforço, a voz arrastada e apagada defendi o art. 141 os parágrafos que sabia de cor e antes que amarrasse exigindo a devolução das roupas atenderam-me com um novo despejo de água.

– Não é possível imaginar-se tamanha covardia e tanta crueldade. Contudo eu as senti. Dessa vez não fiz esforço para enxugar-me? Simplesmente encolhi-me em cima das meias. O corpo exausto gelava. A cabeça fervilhando esfriou pouco a pouco. Uma dormência pesada foi tomando conta dos sentidos. Vem uma sonolência de chumbo.

 

 

 

III

 

“Liberdade, liberdade

Abre as asas sobre nós…”

 

O ruído de motores e rodas passou sobre as minhas pernas. Onde estão meus  pés? Parecem que cortaram. Como é que vou trabalhar sem pernas? O meu serviço é na rua. Ando mais que Ahe. Como vou poder subir e descer pelas escadas dos edifícios? Sem as pernas vou faltar todos os pontos e prejudicarei o andamento das atividades. Tampouco aproveitarei uma folga para fazer uma pelada na praia de Olinda nem arranjarei uma namorada que queira casar-se comigo. Deixarão eu ir a um comício numa cadeira de rodas? Dever ser delírio isso porque quem gosta tanto das festas do povo como eu não pode perder as pernas!

  • Levante-se subversivo!

Porque me chamam assim? Obedeço e caio. Agarram nos meus cabelos como se fossem, me escalpelar. Puxam e saem me arrastando pelo chão de barro batido. Água e barro enlameiam-me. Não basta machucarem, é preciso sujarem?

  • Não me sujem!
  • Visitem ele!

A voz metálica tem um efeito mágico. Parece que estou suspenso como se estivesse sobre a pedra de cimento gelada sentindo simultaneamente uma sensação dupla de calor e frio. Assemelho-me a um esquimó que perdesse o costume numa caminhada e  encontrasse umas peles. Atrapalhando-me abraçando, enrolando-me com a camisa. O calo num instante foi dominando o frio. Comecei a sentir um fervilhar vindo dos pés. Dir-se-ia um formigueiro estourado se espalhando, subindo pelos pés e pernas, passando para mãos e braços, se alastrando para todas as partes do corpo, milhões de formiguinhas pinicando. Isso é sinal que não perdi as pernas. Deve ter demorado algum tempo aos efeitos dessa impressão, antes que cuidasse das circunstancia. Reparei o ambiente com o ar de bronco, assim duma pessoa que rapidamente desperta de um sono pesado e fica aparvalhado de dúvidas entre o sono e a vigília, precisando de beliscões. Naturalmente presumi com acerto, pois não havia outro motivo para as sacudidas, muxicoes  sopapos que me trouxeram a nova realidade. Curioso às reações psíquicas de natureza diante do sofrimento continuado. Não tem nada de extraordinário. Simplesmente temperam-se. Como se fosse um processo natural de sublimação. A consciência política predomina. Adquiri-se um relativo domínio sobre si mesmo. Digo relativo porque os maus tratos, a inanição e a fadiga vez por outra nos descontrolam. Enquanto esses fatores não nos desgovernam os sentidos estão prontos e perscrutamos inconscientemente o embate inquisitorial. Apesar de cansado, a serenidade do ânimo deve ter sido refletida na fisionomia porque fui observado com um bofete.

  • É desses dirigentes fanáticos!

Felizmente não era nenhum dirigente. Se enganaram.

  • Deixe ele!

Novamente a voz metálica comandou. Pude observar melhor, sentaram-se num banco recostado à parede entre dois brutamontes, o cabeleira e o mameluco. Ladrando em pé o baixote e quatro indivíduos corpulentos e mal encarados. Passando da sala ao interior da casa um galego de estatura média, robusto, bem trajado que de vez em quando ajeitava os óculos. Defronte, diante de uma mesa, com uma pasta em cima de papeis, o dono da voz metálica. Era um tipo pálido da cor de vela, covas na testa, o cabeleira fina aberta no meio. Olhar duro e penetrante como laminas. Chamavam-no capitão. Tinha trejeitos de barata que morde e sopra. Foi o técnico da farsa dos interrogatórios. Iniciou o espetáculo com estribilho:

  • Nós lhe apanhamos porque v. foi traído por seus companheiros.

Mas ninguém tem esse tipo de companheiros!

  • Declame os nomes!

Dão-me sopapos porque?

  • Não banque de besta com o capitão ouviu? Ouvi mas a besteira veio dele.
  • Você é muito moço. Não tenho interesse em vê-lo se acabar tão depressa. Para abrir seu juízo vou refrescar sua cabeça alguma coisa de tudo que estamos a par de suas atividades. Teve início outro ato da tragichachada.
  • Você esqueceu seus nomes. Vou lembrar: Joel? Paulo, Alcides, Quintiliano, não é mesmo?
  • Não!

Puxam pelos cabelos. Batem com o cassetete entre as omoplatas na altura dos pulmões. Contudo, creio que em nenhum batistério encontrarão ninguém com tantos nomes. Onde arranjaram esses nomes? Por que esses e não o meu mesmo? Pararam. Dever ser sinal do homem-barata.

– Não adianta negar nada. Sabemos de tudo. Olhe seu embrulho de documento.

Num passe de melodrama o dono da voz metálica desenrola um pacote exibindo uma edição castelhana de Engels sobre La Vivienda, uma revista problemas, Nº 41 e uma caderneta aramada de apontamentos. A peste das anotações!

  • Isso não são documentos!

Foi uma gargalhada teatral. Fizeram coro. Apenas eu fui o único a não perceber o motivo da hilaridade geral. O homem-barata explicou!

– Por causa deles você vai ser expulso do partido. De acordo com a linha quem cai com documentos espirra e você deve saber disso; não sabe?

  • Esse filho da p. quer fazer-se de besta!

O cabeleireiro se enfurece porque ignoro a existência desses juizes, dentro das  fileiras do partido da classe operária e sacode minha cabeça de encontro à parede. Porem, o chefe interrompe. Minha cabeça arrebentada não servirá de nada. Ele prossegue a representação.

– Ainda com esses documentos lhe enquadraremos com 4 anos na nova lei de segurança.

E folheando página a página, como se descobrisse o ovo de Colombo passa a citar trechos de imaginárias comprovações que fariam vergonha a qualquer almanaque de adivinhações de bruxaria, concluindo enfaticamente:

– Você é um emissário de Prestes que passou recentemente pelo Rio, Goiás, Minas, Bahia e está agora dando assistência em Pernambuco.

O mameluco de olhar de peixe morto, como quem pega e deixa.

– Aqui nós acompanhamos todos seus passos. Cita datas. Enumera casas de nomes conhecidos. Outros entraram em cena. Quase todos falam de maneira desordenada acrescentando os mais absurdos detalhes. Como se disputassem a primazia de atirarem cascas de bananas em maior quantidade. Penca de nomes conhecidos, desconhecidos soltados numa linguagem de sarjeta. Como podem ser tão asquerosos? Tento desmentir. Caem como abutres sobre a vitima indefesa. Suspendem a carniçaria. A função continua.

– Queremos de você apenas as ligações militares com os oficiais superiores, sargentos e praças das forças armadas.

Semelhante a agulha sovada emperrando no disco. Repetiam, repetiam. Paravam para as pancadas nas costas. Mudavam às vezes.

– Você foi traído. Escapou uma vez em Alagoas. É novo no partido, é de 50. Esteve doente dos pulmões. Andou nas mãos de vários médicos. Afastado em processo autocrítico por ter deixado o Estado, subiu rapidamente logo depois. Vê-se que é sabido, porem está bancando o besta.

  • Conhece Ramalho?
  • Conhece Luiz e Laudo?
  • O bancário Hamilton?
  • Pois eles são mais inteligentes que você. Quer sair com vida daqui? Dê o serviço! Como fazem pouco da dignidade humana e como são cínicos!
  • Acabem de uma vez que não tenho nenhum serviço!

Quanto tempo faz? Minha cabeça está a ponto de estourar. O corpo é uma fogueira ardendo, queimando. A garganta está entupida não emite mais sons. A fala que é um sopro de tísico. Até onde vão os limites da resistência humana? Investem novamente. Arrancam as roupas. Arrastam-me para a cela-túmulo. Fazem a proposta.

– Esse dormitório é bastante para liquidar uns pulmões, se você quiser salva-los, vai ficar um questionário é só responde-lo e lhe soltaremos.

Afastam-se, fazendo o ruído de motores e rodas. Sinto alegria porque minhas pernas não estão cortadas. Posso movê-las. Mexo-as, esticando e encolhendo. Tusso. Dói-me as costas. Escarro para fora das grades. Se pudesse ver. teria escarrado sangue? Luiz e Ramalho foram inteligentes. Disseram essa doença nos pulmões, mas, eu não conheço esses dois sujeitos. Onde foi que ouvi aquele nome esquisito de Quintiliano? Foi numa conversa do médico com o banqueiro. Um acesso de tosse. Novos escarros. O arrepio de frio vem chegando. Encolho-me como uma cobra enrodilhada. Como estou cansado! Reclino a cabeça dolorida sobre os joelhos. Porém, o sono não se concilia. Percebo o cochichar e noto a porta aberta, os dois carrascos se aproximarem com uma latinha dessas de óleo de cozinha.

  • Tome um café!

Não tive escrúpulos à sede clamava nas entranhas como nas zonas de seca do nosso sertão. Segurei cobiçosamente a lata e sorvi avidamente o líquido grosso e morno. O estomago deu voltas, assim como tivesse virado do avesso, devolveu o corpo estranho. Náuseas. Convulsões dolorosas. Vômito. E aquele gosto repugnante de querosene. As gargalhadas fecham a porta. A mistura de água com querosene era um visgo engrossando a língua, inchando a boca, trespassando a garganta no esforço de limpeza da imundice. Os olhos encheram-se de lágrimas que a consciência teve força de petrificá-las. Você vai ver o que é a reação financiada pelo imperialismo norte-americano!. Os episódios baralharam no cérebro. As idéias e pensamentos viraram um filme repassando de parte em parte como nos cinemas antigos. O frio, a sede e febre quebravam a fita marcando os intervalos. Mas o filme passava dentro da cabeça. É uma grande fita, porém não estou percebendo direito. Está escuro e embaçado. Diviso montanhas de dólares, fileiras de arranha-céus. Uma legião de negros em pânico. Gritam convulsionados, se contorcem diante de uma chusma de galegos. Enfurecidos. É como um jogo dantesco. O team descomunal dos galegos desfere botinadas. As cabeças dos negros nos passes terríveis dos pontapés.

A fita quebra-se como nos cinemas poeiras. Aparece um título reação financiada pelo imperialismo norte-americano. Não distingo mais nada. Deve ser um seriado desses que ficam para a próxima semana. Com esse frio vou terminar congelado. Daqui a pouco estarei dormente. Até quando se agüentará esse tratamento? O fardo do sono abate. Não é propriamente sono. São cochilos. Cochilos entrecortados por três sentinelas que se revezam, o frio, a sede e a febre. Os cochilos são breves e cheios de sonhos curtos e curiosos.

 

 

IV

 

“Sonhar, às vezes, é bom e necessário

Desde que os sonhos ajudem a realidade.

 

Sonhei. Os sonhos repassaram fita seriada. Desta feita, episódio de guerra. Pássaros gigantescos metálicos sobrevoavam despejando bombas, cuspindo rajadas de chumbo e fogo, sobre a pequenina República Popular da Coréia. Emergindo do fumo dos horrores de campos calcinados, cidades em escombros, a resistência heróica. Pairando sobre as ruínas pedaços soltos de pano branco. Nuvens de pano branco. Flocos brancos por toda a parte. Teriam assinado o armistício? Milhões de homens, mulheres e jovens agitando bandeirolas alvas que contrastavam com seus aspectos macilentos, estropiados e em trapos. O símbolo da paz tremulando das mãos ensangüentadas dos horrores da carnificina. Quando teremos paz definitiva?

– De novo o ruído dos motores e rodas pareciam trazer a guerra. Pancadas surdas, como em fardos de algodão se repetem. Estão batendo em alguma coisa. Que batiçao medonha. Cinco minutos. Quinze. Meia hora. Em que batem tanto? Agora despejam água. Cessaram as batidas. Tropel de passos se encaminha. Os brutamontes vêm para cá. Fazem guinchar a fechadura. Carregam um homem. Colocam-no num cubículo contíguo. Aquelas pancadas seriam nele? Retiram-se cochichando entre eles. Os passos se afastam levando os rumores do veículo. Os 2 cães ficaram. Trazem a minha camisa. Que é que há? Forço uma ligação com o companheiro. Estiro a mão direita por entre as grades e alcanço as barras contíguas. Dou uma série de tamborilhos com os dedos. Será que ele está sem sentidos. Não está ouvindo?

  • Companheiro! Companheiro!

Sopro várias vezes o sussurro fraternal.

– Ele segura calorosamente a minha mão, no gesto mais belo e comovente da nossa existência e chama pelo meu nome. Várias vezes reapertamos as mãos. Repetíamos com um entusiasmo de crianças a nossa saudação. E mal grado as ameaças trocávamos as idéias e pensamentos fazendo análise acerca das causas que nos levaram a queda e reafirmava-nos nossa posição frente ao inimigo comum. Como esconder-lhes o meu abatimento se o estado físico era de total esgotamento. Se contiver a febre poderei dissimular ainda muito a fim de poupar-lhe preocupações a meu respeito. Espaçadamente o sono me vencia e permaneci ata retirem-me no estado do semiconsciência ora falando com lucidez, ora sem perceber direito no estado de dormência completa. Passamos alguns dias juntos. Permutando o máximo de solidariedade naquelas circunstâncias.  Não me tiraram mais para interrogatórios. Levaram algumas vezes uns bocasos que repartíamos. Uma noite eles chegaram. Devolveram-me as roupas. Ajudaram-me a vesti-las e transportaram-me para o gip.

– Como é rapaz. É a ultima chance. Vamos acabar de matá-lo e enterra-lo no meio do caminho, fala?

  • Acabem logo!

Esmurraram. Caí. Levantaram-me. Jogaram-me no veículo. Demoraram. Irão trazer Ivaldo? Cobrem minha cabeça com um capuz de lona. Alojam-se e põe o carro em movimento. O ruído agora martela diretamente permanece por várias horas. Ivaldo irá comigo. Saberá que estão me levando? Faço um esforço e tagarelo quaisquer pensamentos para alerta-lo de minha presença mandam-me calar com um sopapo. O sono novamente. A morte deve estar rodando conosco. Estou num cortejo fúnebre. Para onde nos levam dessa vez?

O motor estanca. Passos marciais batem os calcanhares. Levam-me para um quarto e sacodem-me em cima de um móvel macio. Retiram-se. Não raciocinei mais. Apenas usufruí a maciez tépida de uma cama de colchão. Esforço-me para afastar quaisquer pensamentos que contrarie a satisfação da necessidade de dormir em cima de um colchão. Que bom se dormisse logo, imediato. Mas não consigo dormir e é preciso dormir senão  arrebentarei. Ao menos uns cochilos. Porque a gente pensa sempre até nessas condições. Rolo de um lado para o outro embolando na cama. Uma sensação amaciadora no corpo inquieto. O colchão é comum, mas parece que estou deitado num monte de penas. Tão macio como as plumas, plumas brancas que nem feitos das pombas brancas. Centenas de pombas esvoaçando num céu de nuvens. E vão soltando as penas que nem as mudas de passarinhos. As penas voavam, subindo e descendo em câmara lenta. Meu corpo está coberto de penas que me suspendem até as nuvens. Nuvens brancas. Como montes de colchões onde meu corpo embola e se cobre. As nuvens são colchões ou cobertores do céu? Não creio no céu nem no inferno. Estou com muito sono. As penas, as nuvens estão pesando no corpo. Não vejo mais nada só sinto a carga de chumbo nas pálpebras… não sei quanto tempo dormi. Lembro apenas que acordei com a agulha de injeção. Foi uma impressão aterradora. A agulha, a seringa pareciam descomunalmente soltas no espaço, suspensas sobre a minha cabeça. Reagi instintivamente contra aquela visão apontada para mim. Dominaram-me. Injetaram a agulha por três vezes. No braço. Disseram que já haviam feito isso várias vezes durante o sono. Soou a corneta. Toque de rancho. Passos apressados, marca de soldados. Abre-se a porta. O homenzarrão leva a agulha de injeção e dá ordens.

  • Daqui à uma hora tragam torradas e leite para ele!

A impressão da agulha foi-se desfazendo. Começava o novo tratamento. De espaço a espaço um sargento, um cabo, um soldado visitavam o quarto em silencio espantado. Tem ares humanos. Peço informações. Tento cumunicar-me. São mudos. Nada respondem. Como podem ser humanos se não falam uma só palavra? A linguagem distingue a criatura humana. A linguagem é o meio de comunicação.

– Onde estou? Quem me trouxe aqui? Que quartel é esse? Por que aqueles bandidos me prenderam aqui? Ninguém está me ouvindo? Respondam alguma coisa! O exercito já se passou para seqüestrar e matar civis? Vocês são coniventes, ganham da pátria para isso? Escutem! Escutem! Quero ser liberto! Como autômato um a um saía em silencio. E clamei contra a injustiça. Denunciei os crimes dos monstros. Não falaram. Eram insensíveis. De súbito um milagre ocorreu. O lençol está com a ponta dobrada por cima da cama. Desvio e encontro um chocolate. Um cigarro. Um talo de fósforo. E um pedaço de lixa. Um chocolate e um cigarro. Que alegria depois de tanta tristeza. Não me recordo bem. Parece que comi o chocolate e fumei ao mesmo tempo. Queria demorar o cigarro e mordia o chocolate. Mas cada tragada era absorvente de fumo. E a avidez num estante consumiu o cigarro, cuja ponta final queimaria aos beiços de tão deduzida. O vício de fumar é uma desgraça. Nunca tentei deixa-lo. Mas o olhar e o gesto humano do soldado desconhecido eleva o vício negativo de fumar a uma virtude de solidariedade humana. E anima a tentar a comunicação. Um sargento cede.

  • Aqui é o quartel de Cinco Pontas. Recebemos ordens para mante-lo preso e somos proibidos de lhe falar; é só.
  • Mil vezes obrigado colega! Essa informação é o bastante para qualquer militante que tenha uma noção de dialética. Estou num quartel. Visto por dezenas de soldados. A reação se detém e passa a recuar nos intentos criminosos. Agora que pretendem? Uma farsa-militar-jurídica? Passam alguns dias. Distraio-me experimentando sargentos e praças que estão de dia de serviço, plantão ou sentinela. A maioria é gente simples. Não falam. Outros resmungam monossílabos. Uns poucos atrevem-se a falar. Nenhum soldado me hostilizou. Olhavam-me humanamente. E anonimamente, no peitoril da janela, sobre a cama e no chão, debaixo da cama, os cigarros se multiplicavam, os palitos de fósforos e pedaços de lixa, cresciam. Fumar deixou de ser problema. E eu monologava sem parar nas curtas visitas que faziam, dava o endereço da “Folha do Povo”, falava em nomes conhecidos, talvez algum fosse servir de mensageiro. Serviam-me ovos Paes, frutas, doce, leite, imaginei por experiência própria:
  • Servem isso no rancho dos soldados?

E ao fitar a patrulha, o soldado acenou negativamente com a cabeça e me olhou com uns olhos belos de fraternidade.

A corneta deu o toque de revista. Passo de marche e marche. Quando era criança sempre desejei uma corneta, um tambor e uma coleção de soldadinhos de chumbo. Espiava sempre um filho de um vizinho rico do bairro brincar no terraço de sua casa. Tanto espiei que consegui a amizade do menino rico para me emprestar as escondidas os brinquedos. Com sôfrega alegria soprava corneta, batia no tambor diante da coleção dos soldados de chumbo, imaginando para o resto da vida, um marcha diferente, nas de passo curto.  A corneta e o tambor serviam apenas para fazer guarda, porque me preocupava em comandar uma tropa diferente de soldados imóveis, queria ter um desfile de rapazes e moças de braços dados cantando canções pela avenida da paz. A empregada do colega rico sempre estragava essa distração, tomando os brinquedos e rogando pragas contra os caroços de ? e nomes feios que lhe eram justamente endereçados. Meio tarde, como soldado  ?, foi um  ? a experiência do meu papel como soldado de chumbo. Novamente o toque da corneta.

Subitamente a porta é escancarada. Talvez estivesse muito distraído, não percebendo o ruído de tranca. Como pode ficar detraído numa situação dessa? Por isso já me chamaram de sonhador. Não dava nunca para chofer de lotação no Rio de janeiro.

– Então está melhor aqui. A sopa vai acabar. Se assinar esses documentos vai embora, se não será fuzilado agora! Escolha!

Aquele odi? Voz metálica do capitão de cara de cera de vela, cabelos lisos, reaparecia com um olhar frio e cínico de sádico profissional, acompanhado dos repelentes tiras e um outro almofadinha de anel de rubi e unhas esmaltadas. Ah se pudesse ajustar as contas com esse pulhas como nos filmes de bang-bang. Aparece uns soldados. Talvez fiquem do meu lado.

  • Como é assina não?
  • Não assino coisa nenhuma!… seus covardes!…
  • Algemem ele e vamos leva-lo!

Num abrir e fechar de olhos estava algemado os pulsos finos magoavam logo. Curiosa lembrança que tive foi de frei caneca. Naquela antiga fortaleza de cindo pontas, ele foi fuzilado. Soube portar-se como um herói da pátria. E foram bandidos lacaios de colonialistas como esses que executaram o sacerdote revolucionário. Contanto nem desejava ser mártir e não acredito na vocação de herói, encaminhei-me, com esforço para demonstrar o máximo de desprezo pelos canalhas ali presentes. Assim atravessamos o pátio e nas proximidades do corpo de guarda, insistiram na palhaçada.

  • É a sua ultima chance, comunista de …

Agarraram-me e jogaram-me dentro de um gip, que manobrou no interior do quartel e rumou pelo lado do cais de Santa Rita. Que beleza sentir o sopro do vento!

O sopro da brisa vem do mar. Do mar dos arrecifes. Traz o perfume do mar e o mau cheiro dos alagados penetrando no gip que eu aspirava como cheiro de mulher bonita. Faz tempo que não vejo a beleza do mar e desse rio dourado como um corcel de arreios feitos de canais e pontes. Como Recife é linda! Bastava um cais desse na lagoa do vergel do lago e Maceió seria tão bonita como Recife.

As barracas do cais de Santa Rita estavam apinhados de gêneros, verduras, mercadorias. Devia ser véspera de feira. Seria melhor no dia mesmo da feira repleta de gente. Assim tem pouca gente mas eu poderia tentar saltar. Estava colocado entre o cabeleira e o cada de cera que estava dirigindo. A dificuldade seria manejar as mãos algemadas. Planejei mas uma tentativa. Quem não arrisca não petisca. Será melhor cair no meio do povo do que permanecer isolado nas mãos desses bandidos. Se querem me fuzilar escolherei a praça onde sopre um ar livre desse  amado Recife. Esse lago fica perto do Mar que é a coisa mais bels do mundo. O sinal estava livre, passou ao aviso e vai fechar antes do gip  chegar na ponte. A surpresa ainda vale como forma de ataque. Reuni as energias e lancei-me tentando pegar o volante, desviei a direção e lancei-me por trás do chofer.

O gip zig-zagueou à direita, à esquerda desorientando-se por instantes, mas os pulsos enfraquecidos e dominados e adveio um sono profundo onde talvez só a respiração indicava o sopro que vinha do mar da revolta. Acho que sonhei uma praia imensa de areia branca. Esforçava-me muito correndo, mas os pés se enterravam na areia dificultando os passos. Era enorme o esforço que fazia para obter velocidade, mas a areia branca era como irmãs atraindo os pés que mal saiam do lugar, e não mantinha o corpo se deslocando tropegamente como se fosse as topadas, cambaleando e tentando evitar uma desastrosa queda.

De súbito tudo estancou. Estavam me retirando do gip. Uns soldados do exército levaram-me para o corpo da guarda em outro quartel, logo identificado como o Batalhão de Guarda, próximo do parque 13  de Maio. Encarceraram-me sem palavras numa cela de grades, num dos corredores onde havia uma cama forrada de lençol branco e cobertor de flanela. A corja sumiu sem se despedir. Uma dor de cabeça tremenda martelava o crânio dificultando o raciocínio. Deitei-me na cama, mas não consegui conciliar o sono reparador, assistindo a ronda quebrar o silencio com os passos dos soldados de duas em duas horas, até o amanhecer, quando um sono entrecortado e curto dominou a depressão física. Pela manha trouxeram uma bandeja contendo café com leite, ovos e Paes que belisquei como menino luxento devido a falta de paladar e o gosto ruim de mingau na boca. Mal terminada a refeição apareceu um oficial bem apessoado, de bons modos dizendo:

– Lamento a situação senhor, mas como soldado que cumpre ordens, devo comunicar-lhe que recebi ordens para entrega-lo daqui a pouco a polícia civil.

Aproveitei para denunciar e protestar contra a conduta do Exército Nacional que acobertava essa arbitrária e deplorável situação de seqüestrador, tortura e entrega do cidadão à polícia de repressão como preso comum, estranhando que oficiais do Exército se sujeitassem ao triste papel dos antigos capitães do mato. Limitou-se à resposta mecânica – sinto muito. Nada posso fazer. Com licença.

E o garboso oficial  retirou-se. O destino era claro. A farsa militar encerrava-se. Ia ser entregue à polícia de Etelvino para a montagem da segunda farsa, a farsa policial.

Apareceu um indivíduo baixote, nervoso, com cara de pateta acompanhado pelo oficial, que se apresentou:

– Sou o inspetor Matusalém, vim busca-lo e se facilitar comigo, encho-le de bala! O oficial pertubou-se intervindo:

– Desculpe vim apresentar-lhe o preso… espero que nada lhe ocorra aqui na caserna durante o meu serviço.

Com mil trejeitos de neurastênico o homincúlo que cortava o cabelo rente se desfez em bajulações e provocações:

– Não se preocupe meu comandante, deixe comigo, esse indivíduo é muito perigoso o nosso S.S. já me deu a ficha dele, recomendando que todo o cuidado é pouco.

  • Vamos ao gabinete aguardar a confirmação para entrega-lo.

Os dois se afastaram. Não intervi no dialogo. Meditei sobre a informação do tira imbecil. A situação se aclarava. Ia ser entregue a polícia política do Recife. Provalvemente os tiras viriam buscar-me. Estava identificado? Como se deu isso? Teria sido inútil resistir’ suportaria tudo para não tirar a sentença na cadeia. Esse oficial não é fascista. Sua conduta é vacilante mas não me farão  mal aqui. Protestei na hora da saída, talvez seja útil dos soldados ouvirem um comício, talvez o oficial me ajude. E se me levarem para o ? da  rua da Aurora? Na certa me maltratarão, não devo me comportar mansamente. A viagem para Maceió será de trem ou ônibus e no máximo 2 ou 3 tiras, eu tentarei escapar. Tomara que seja esse tira fanfarrão que me leve para Maceió…

Os passos interrompem a imaginação planejando a fuga fácil. Soa soldados. Volta à realidade. Enquanto abrem a cela, ensaio um discurso, de protesto, tentando contra por a policia ao Exercito. Um sargento depois de escutar um pouco foi incisivo sem deixar nenhuma ilusão de classe quanto ao papel dos dois instrumentos de reação.

– Temos ordens para entrega-lo a polícia, la foram queira nos acompanhar!

Insisti contra aquele absurdo. Invoquei a condição de ex-sargento. Deveriam me por em liberdade. Ou entregar-me a um advogado de idoneidade aprovada. A corporação assumia a responsabilidade de entregar-me a uma polícia de bandidos, cujo o inspetor à poucos instantes me ameaçava de encher-me de bala. Não era possível que o Exército compactuasse com essas iniqüidades!

– Agarrem-no e levem-no! Ordenou o sargento.

Os soldados se acercaram dois seguraram-me nos braços, e pacientemente, sem empurrões, deixando que eu caminhasse sobre os próprios pés, acompanharam-me no pátio do corpo da guarda com a porta dos fundos escancarada, um tira de cada lado, uma fila de soldados de prontidão. O oficial não reapareceu. Apenas o tira Matusalém adiantou-se nos fundos do tintureiro, blasonando:

– Agora deixe comigo sargento, venha entre no carro de honra!

Os soldados soltaram-me os braços, se afastando para os lados. Os tiras se adiantaram.

– Protesto, protesto contra esta covardia, não sou criminoso para andar em “tintureiro”, sou um comunista, o Exército está sendo conivente com esse crime da polícia! Os tiras avançavam como cães de fila, dominando-me facilmente me jogaram dentro do tintureiro. A porta fechou-se. Tudo escureceu. tateai uns dois bancos. O motor deu partida. O carro rodou uns cinco a dez minutos, estacionando algumas vezes. De ultima parada abriram a porta.

– Salte!

A claridade turvou-me ligeiramente a vista.

 

 

 

 

Fim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jayme Miranda – Luiz Nogueira

Do que lembro, cheguei à Penitenciária Estadual, vizinha ao Quartel da Polícia Militar, no dia 04 de abril de 1964, por volta das 14.30 horas. Recebido pelo Coronel Argolo, alto, tipo atleta, um tanto gago, fui, por conta de possuir nível universitário completo, já formado em medicina, encaminhado para amplo salão, com vistas para o centro de Maceió, reservado ao Estado Maior da Polícia, quando detinha ou simplesmente respondiam a processos oficiais da Polícia e mais das vezes autoridades civis.

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