Jayme Miranda – Luiz Nogueira

Do que lembro, cheguei à Penitenciária Estadual, vizinha ao Quartel da Polícia Militar, no dia 04 de abril de 1964, por volta das 14.30 horas. Recebido pelo Coronel Argolo, alto, tipo atleta, um tanto gago, fui, por conta de possuir nível universitário completo, já formado em medicina, encaminhado para amplo salão, com vistas para o centro de Maceió, reservado ao Estado Maior da Polícia, quando detinha ou simplesmente respondiam a processos oficiais da Polícia e mais das vezes autoridades civis.

Jayme Miranda já estava lá, formado que era em Direito. Chefe político, presidente do Comitê Regional de Alagoas, do então Partido Comunista Brasileiro e membro efetivo do seu comitê nacional.

Dirigi-me ao Jayme e cumprimentamo-nos. Velhos conhecidos, pois eu desenvolvia atividades políticas, na área estudantil, de um modo geral, e, particularmente, na Faculdade de Medicina, ainda estudante, principalmente no último ano de estudo de bancos escolares.Havia mesmo sido secretário do Diretório Central dos Estudantes e bibliotecário do Diretório Acadêmico de Medicina.

Nos, os jovens que fazíamos a propaganda marxista no meio universitário, nem sempre sabíamos coisas apropriadas sobre o marxismo. Para nós, o marxismo era apenas um ato de justiça social, uma maneira de superar a desigualdade entre a choupana e o palácio, entre a miséria e a pobreza. Um marxismo que, na maioria de nós, entrou pelo nosso olhar de tristeza sobre os campos das desigualdades sociais e foi se alojar em nossos corações cheios de revoltas e desenganados da fé em dias melhores. Uma espécie de marxismo oftálmo-cardíaco. Somente os anos nos conduziriam às pesadas leituras sobre marxismo. Entre o pecado da juventude e a redenção por contas das nossas reflexões, longa estrada foi aberta, muitas estações construídas, muitos passageiros desembarcando, uns assustados, outros tristonhos, alguns acovardados, e somente uns poucos continuaram a viagem. A longa viagem até um certo fim melancólico do sonho socialista, dois dias de hoje, em face da enorme crise vivida pela utopia socialista.

Jayme Miranda, na prisão, ensinou parte daquela geração a jogar xadrez e a ler Shakespeare. Para tal, mandou buscar em sua casa um jogo de xadrez e as obras do teatrólogo e poeta inglês. Paciente, sempre risonho, incapaz de revelar indício de medo, ao contrário, quando Castelo Branco foi eleito presidente, fez, numa noite inesquecível, longo relato da personagem durante a Segunda Grande Guerra Mundial, traçando-lhe o perfil de um democrata e concluído que o Movimento Militar de 64 logo reencontraria os trilhos da democracia. Mas, prudente, proibiu que muitos de nós, os que tinham algum relacionamento com o Partidão, revelassem qualquer coisa sobre “ser comunista”, adiando nossos desejos de heroísmos, alegando que qualquer coisa de grave que nos acontecesse implicaria numa possível descontinuidade do processo político socialista futuro. E justificava-se: “Comigo poderá acontecer o pior e o que não me será novidade. Mas vocês precisam se poupar. Neguem tudo. Escapem. Um dia o socialismo agradecerá isso a vocês. Talvez eu não mais esteja vivo. Lamento tolher-lhes a prematura vocação para o heroísmo. Lastimo mesmo….”

A par de tudo Jayme era devoto e tinha como madrinha de batismo Santa Terezinha, santa que se lhe fosse pronunciado o nome ele ria, mas não escondia alguma devoção. Sua figura, e mais vezes o modo de ser que lembrava um monge revolucionário, muitas vezes me deixou dúvidas sobre se seria um comandante para alguma batalhava que viesse a ser travada. Muitas vezes, pensei que ele era, de fato, apenas um catequizador, um teórico, um ideólogo, porque lhe faltava aquele toque marcial dos chefes de operações clandestinas. Antes de mais nada, Jayme era amável, cativante e risonho. E se havia um momento no qual parecia, de fato, um chefe de revoltas, era quando estava no palanque, então vigoroso, concentrador de atenções, capaz de levantar delírios. Capaz de dissipar dúvidas sobre se o sonho socialista não seria o melhor para a humanidade.

Numa noite, sabendo que eu seria solto, Jayme me meu deu uma tarefa:” Você irá hoje a noite ao tabuleiro.. Vá encontrar Silva Lira, o tesoureiro do partido, e diga-lhe que faça de tudo, consiga alguma doação, e dê assistência as famílias dos nosso presos…”

Nunca, em toda a minha vida, havia realizado uma tarefa realmente clandestina, na calada de uma noite escura e chuvosa. Capa plástica, preta, chapéu, senti-me a personagem de um desses contos perigosos onde tudo podia acontecer. Tudo diferente dos claros dias de pregação marxista nas faculdades, nas ruas da cidade, e mesmo nos sindicatos, em clima de tolerância, não sei bem se da liberdade que supúnhamos, então. Agora, sim era mesmo clandestinidade. As prisões estavam lotadas. E, depois de solto, a reincidência seria mais grave, eu sabia muito bem disso. Mas realizei a tarefa. Depois mandei a notícia para Jayme.

Esse foi o Jayme que eu conheci. E não sei seria mau caso atingisse o poder. Se seria intrigante, mau, injusto, justo e enfim tudo o que mais pode acontecer a um dirigente político. Esse é o Jayme, um ícone, um símbolo de luta e idealismo. E que, se algum dia for possível uma ressurreição socialista, servirá de bandeira de luta.

Alagoas tem um ícone, um símbolo, apropriado para ressurreições.

Jayme pertenceu a essa estranha raça de sonhadores, de utopistas, que povoa o planeta. E que serve tanto aos tempos passados quanto aos vindouros. Isso é, com certeza, algo de imortal…

Luiz Nogueira Barros

Maceió, 06 de fevereiro de 2005

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